A ILHA

Meu mar tem nome: paciência. Um mar a Jó. Um rio que corre, por ser seu destino correr, navegar em si, mergulhar em fins . O Marajó não tem sim. Tem sinos no final da tarde e sinas no fim da madrugada. São rios e ilhas a se esfregar brutalmente, sem permissão.

Os rios de Boa Vista são turvos e densos, quase tudo está guardado do olhar passageiro. É um lugar de “para sempre”, para se observar e perder a noção do tempo que escorre entre aquelas águas. É belo e grotesco. Um lar para estrangeiros e um purgatório para boavistenses. A ilha trai, e expulsa. A ilha é má, de uma crueldade quase punição. De uma beleza que cega, um pôr-do-sol que te enfeitiça como bichos da luz.

Existem lugares no mundo infinitamente mais belos que São Sebastião, até se pisar naquela terra. Aquela ilha engana, se vende ao olhar como se fosse o paraíso. E não é.

Boa Vista é um dos portais do inferno, mas eu amo aquele lugar. Só lá eu consigo ter instantes de juízo, e força para enfrentar qualquer destino.

Os rios de Boa Vista correm entre o sangue de minhas veias. Não existe nada tão assustador quanto as águas da vazante dos rios no fim da tarde. É de uma agressividade absurda.

O pior é o silêncio do entardecer. Ele dói no ouvido. E provoca a sensação de se estar só no universo. 

Quando se senta naquela ponte pública no fim da tarde dá vontade de sair voando com os papagaios, para um lugar qualquer, para qualquer lugar longe dali.

Em São Sebastião se vê satélites a vagar entre as estrelas, muitas estrelas... Lá é possível envolver-se num por-da-lua. 

A lua é um espetáculo à parte, ela pode ser vista no céu do meio-dia. E o nascer da lua cheia é algo entre o espetacular e o assustador.  E quando ela vem com tempestades... Arrepia.

As tempestades do Marajó são (eram) apavorantes. Já vi raios caírem à minha frente, e ventos e chuvas de dilúvio. Mas também brinquei de barquinho de papel nas sarjetas da Coronel Monfredo, nas valas do colégio das friras. Tomava banho de chuva quase todas as tardes e mergulhava num rio de águas mornas na ponte do Seu Cabecinha. Bom era colocar os olhos no nível da água e ver aquelas gotas espirrarem do céu no rio, ficar de molho no igarapé e morrer de cócegas com camarões a me beliscar as pernas.

Saudade dos amigos, que mesmo longe continuam amigos, saudade de tantas pessoas que quero muito bem.

Ainda sinto o cheiro das águas de março a naufragar a cidade. De olhar pela janela do meu quarto e ver girinos e peixes no igarapé que surgia em março sob minha antiga casa, quando a Coronel Monfredo ainda tinha pontes.

Hoje, estou em São Paulo, muito disso me soa tão estranho, aparentemente não tem nada a ver com a minha realidade. Mas em Boa Vista engatinhei sob algumas casas procurando potes com tesouro, procurei peteca e tampas de coca-cola para ganhar miniaturas de coca-cola  da Índia ou do Japão, mas só se achava folha seca e os eternos plásticos mergulhados na terra, além de tampinhas de guaraná cerpa.

Quando me questionam sobre o motivo d´eu ter saído do Marajó sempre digo que foi por falta de oportunidades profissionais, mas minha versão oficial é o medo da ilha. Vivi 15 anos em Boa Vista, 15 anos de muitas lembranças apavorantes. E embora em SSBV eu tenha vivido os melhores dias da minha vida, a ilha me assusta.

E mesmo com medos – de infância – do sol e da lua que se poem no Coroca, o minha Boa Vista é a minha vida, o meu ódio, as minhas inseguranças, os meus medos e o meu equilíbrio.  SSBV é o lugar que eu mais amo em minha vida, mas ele me machuca tanto que prefiro ficar longe dele. E se eu tivesse a opção de escolher onde nascer, escolheria nascer lá novamente.
Devo muito àquela ilha.

Só tento ser um pouco daquele pôr-do-sol.



 Escrito por Ronaldo às 17h11
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