DETALHES
Não sou adepto da delicadeza blasé, nem de detalhes. Esquivo-me até do Alencarismo de seu Zé e sua Iracema halitosamente: baunilha!
Mas trago da ilha em mim “a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome.”
Joguei o amar ao mar, com suas ondas batendo e arrebentando-se em pedras, em areias e em si mesmo, repetidamente, em tempos e lugares novos. Um debater-se necessário, repetindo-se no mais do mesmo: O sempre com cenário “moldificado”.
Sim! Amei muito. Amém!
Ele roubava meu melhor sorriso, e até hoje me rouba, em sonhos. Acredito que exista sempre um amor maior que suplanta quaisquer outros amores também importantes.
Aos 10 eu colecionava samambaias, ele me presenteou com vinte e tantas espécimes diferentes, que ele colheu na mata da ilha. Ele sabia que tal vício era temporário, anos antes já havia me presenteado com petecas – bolinhas de gude – de todas as cores e formas. Eu queria um pedaço do mundo, e ele queria pedaços de mim. E teve.
As tempestades daquela ilha desvendam nossas maiores fraquezas. Numa madrugada acordei com a ilha em chamas, a cidade quase toda fugiu em canoas para o outro lado do rio, e eu dividia um lençol fino com ele. Foi a primeira vez que pensei em fugir daquele mundo de chuvas, onde eu brincava com meu Falcon nas sarjetas, entre barcos de jornal, girinos e baratas-d´água.
Ele sempre prometeu me proteger, e assim fez, até o dia em que nos apaixonamos pela mesma mulher. Nos separamos por um tempo. Conheci outros amigos, cometi meus primeiros interessantes pecados, ele continuava presente à distância. Sabia de tudo, naquele fim-de-mundo tudo é um quintal pequeno, até os jardins revelam os segredos.
O tempo passou complicado e delicadamente, voltamos a nos aproximar no julho de 1989, tivemos dois verões inesquecíveis, ele quase desacreditou em sua sina de ser mais um pai de família. Meu silêncio foi sufocante em mim, eu queria tentar algo que eu nem sabia ser possível. E acabei me contentando com passeios de canoa até o outro lado do rio, calado. Desejando mais, o pouco mais que ainda era possível. Muitas aventuras com terceiras pessoas aconteceram até a nossa última travessia do rio, a última vez duros e cegos da cidade ao longe. Foi a última vez que o desejei tão ao lado, a última vez que nos tocamos fervorosamente. Ainda lembro do rio, da conversa e daquele sol a se pôr.
Hoje, ele se foi. Está morto e aprisionado num lugar que nunca será amanhã. E eu estou aqui, no hoje, buscando paixões novas. Nem tento comparar, pela incompatibilidade de histórias. Eu o amei. Ele será sempre meu maior amor, minhas impagáveis memórias. Mas, continuo aqui, sorrindo sempre por novas possibilidades.
Escrito por Ronaldo às 03h37
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