A-TEUS OLHOS: DEUS! / CARTA À MÃE DO MEU IRMÃO
São Paulo, 10 de janeiro de 2008.
Fatoca,
Hoje faz 14 anos que voltei decepcionado de Sampa para o Marajó depois da primeira tentativa de entrar na USP. Não consegui entrar, mas na minha volta à ilha conheci minha filha, que havia nascido poucas semanas após minha vinda para São Paulo. Eu havia passado seis meses aqui, em Campinas.
Ainda não sei plenamente o que é ser PAI, quando penso em pai só me vêm lágrimas pela lembrança da fatídica música de Fábio Júnior. Acho que ser ou ter pai é um “problema” coletivo à grande parte dos meus melhores amigos, quase todos têm as mães como alicerce.
O pouco contato que tive contigo foi o suficiente para entender de onde vem o amor imenso que troco com teu filho. Ajudaste a construir um dos homens que mais admiro em minha vida. Felizmente ele não presta muito, heheheh! Mas eu o amo tanto mesmo assim.
Não esqueço do trem que eu e meu outro amor gravamos para ti. Tu apareceste num dos melhores momentos da minha vida, eu apaixonado e acreditando no impossível. De grandes amores eu sei que tu sabes.
Hoje acordei cedo, fui ao Museu de Arte Sacra, no mosteiro do Frei Galvão em busca de esperanças maiores. Tenho fé. Talvez seja isso que me mantém lúcido. Peguei pílulas para vocês, ajoelhei e rezei sobre o túmulo do santo. “I say a little prayer for you”.
Sei que nesse momento de descrença e revolta minhas atitudes possam parecer estúpidas, mas o que é certo quando o incerto bate na porta da frente? Nas horas incertas acredito até em fadas, e bato palmas por suas ressurreições.
Quando o mundo aperta eu penso em músicas...
“Quando tá escuro E ninguém te ouve Quando chega a noite E você pode chorar
Há uma luz no túnel dos desesperados Há um cais de porto Pra quem precisa chegar
Eu estou na lanterna dos afogados Eu estou te esperando Vê se não vai demorar”
Não sei qual é a dor ou o incômodo, mas imagino que estejas no limite de qualquer fé, momentos em que se perde Deus ou se xinga o Divino até de filho-da-puta.
Acho que a última coisa que pensamos para nós é ser um “paciente”.
Ainda não sei se estás com raiva ou puta da vida por tudo isso, mas eu estou! Tem tanto filho-da-puta que poderia assumir tal preço e não entendo certos caminhos assim tão tortos.
Eu queria tanto te ajudar mais, mas só tenho palavras, abraços, beijos e um carinho imenso. Desculpa se falei alguma besteira, são pedaços do errado em mim.
Não desista da tua fé! Força! Tem muita gente enchendo o saco de Deus para ele rever esse equívoco. Estamos aqui do teu lado, e somos muitos.
Tenha fé! Até quando não!
Continuo rezando daqui.
Um abraço bem forte.
Escrito por Ronaldo às 02h52
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