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O INFERNO DOS HOMENS VI
Hoje não sinto muita vontade de brincar com as palavras, não sinto vontade de brincar. Guardei meus brinquedos, e minhas armas. Estou triste. Faz tempo que estou triste, que choro em silêncio. Ando calado, num lugar escuro onde o chão se move a cada passo.
Há tempos desejava salvar o mundo, hoje acordo tentando salvar um sorriso.
Todo palhaço é um assassino enrustido. A vontade de salvar a alegria do mundo não passa de uma repulsa à vontade de destruí-lo.
O que significa “ser de esquerda”? Gozar com a ilusão de uma mão alheia? Sentir-se melhor pela dor maior no outro? Quantos fascistas são canhotos?
Ainda não consegui me salvar, nem salvar o meu rapaz, que vaga na escuridão de sua própria mente. É constrangedor quando se tem consciência da impotência perante o simples, quando as coisinhas da vida viram espetos-de-pau.
Sou um homem que num determinado momento da vida preferiu arriscar amar outros homens. Talvez por achá-los mais frágeis que o feminino. “Homens de bem” são – em suas profundezas – sádicos. Embora sempre precisem de colo (seio ou ventre) como abrigo depois de seus crimes.
Tenho a sensação que Deus nasce quando no peito abrem-se buracos negros, quando tudo em volta perde a cor. Talvez um acordo pela sobrevivência, entre o caos e o desespero.
Sinto a necessidade de renegar todos meus pensamentos inteligíveis, repudiar qualquer raciocínio engajado a qualquer benevolência. Sinto saudade do tempo em que sentia a textura arenosa em minha boca dos ovos de tartarugas, cozidos e rasgados num prato com farinha e sal.
Ergue-se a minha volta um mundo cada vez mais sem graça, tudo é politicamente abjeto. Esqueceu-se que a graça vem do sarcasmo pela desgraça do outro. Não há felicidade suficiente para todo mundo num mesmo instante, a alegria é uma energia que circula pelo mundo de mão em mão, e tão fugaz como um orgasmo.
Nem todos os pretos são pobres, nem todos os brancos, felizes, e os amarelos não são sóis. A lua não é uma índia no céu. Estamos todos sós. Um “S.O.S.” acentuado. Todos a procurar no céu um significado à inexistência de chão. A quem pertence a verdade a ver navios?
“Existimos: a que será que se destina?”
Escrito por Ronaldo às 01h46
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ROXANNE RICE / A PROSTITUTA E O VAMPIRO
Meu amor, o céu está cego de estrelas, tudo despenca nesta madrugada. As fadas entraram em greve. Vagamos sem gravidade, sem pressão e sem pulso. Queríamos ser eternos! A cruz em meu peito te afasta. Por que todas as Madalenas são católicas? Marias a parir deuses frágeis, a lamber freios e a ouvir buzinas.
O vermelho que te apavora é o melhor que existe em mim. Mordes meu pescoço a sugar minha escuridão, a roçar vermelhos – interiores espinhos.
Naquela outra esquina as putas pagam por um beijo, todas pagãs. Aqui – católicas – cobramos para morrer. Morda-me, amordaça-me, agora! Crava-me os dentes nas costas!
Hoje as ostras sangram. É lua vazia! É quando todos se enchem de desejos silenciosos. Grita em meus ouvidos! Tenho pavores no silêncio. Quando as palavras me abandonam, naufrago. Meus seios me impedem de voar, queria não ser dependente de leite, queria um ninho e saber quando começa o verão. Só enxergo à noite.
Tu acreditas em Deus? Ando pensando tanto nisso. Ouvi falar que quando se pensa muito Nele é sinal de morte, ou a existência morreu ou o corpo, em breve. Queria te amar por todas as noites até o fim dos tempos, mas a imortalidade provoca tédio. Mata-me nesta noite!
Sempre que ouço alguém dizer “é tarde!” lembro-me dos pores-do-sol que testemunhei. A tarde apavora-me mais que a manhã, à tarde sinto a lua chegando e meu peito virar espelho do céu, um vazio imenso com poucos pontos de luz. Sempre que a noite cai, eu choro. Deveriam pintar estrelas no teto dos úteros para nascermos acostumados. Nove meses de escuridão para nascer! Não entendo o motivo.
Já te falei do meu sonho de cantar? Não?! O palco é meu maior sonho... Quando canto brotam cores de dentro de mim, sinto-me um jardim movendo-se levemente ao vento. Até água ganha cor no céu, em arco, e flechas gotejantes.
Fura-me os olhos antes de me matar, não quero que a morte vasculhe meus pensamentos tristes. Beija-me e mente que me amas, só por esta madrugada.
Escrito por Ronaldo às 14h47
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ESQUINA DO TESÃO
Augusta feia furta sonhos
Augusta são vulvas, frutas
Para todos os gostos
Pára todos os carros
Para todos que precisam de salvação
Por uma noite há penas
A vir árias, aves marias
A ver navios em contratados cios
Coitados em meios-fios
E meias-calças rasgadas
Ave, Maria de augustos homens, e Fernando
De buquês, de Albuquerque, de boquetes
De blocos de cimento no chão
Prestes ou não, a música não pára
Júlios, Getúlios e Césares,
Serpentes e Embu de artes tantans
Não param nunca mais por MEIA-DÚZIA DE MEDUZAS*
O Juqueri é aqui!
A ti, Paulo. São, invertida e louca
A morte cinda, e cidade
Bela
Que me faz doer, que em mim a-cor-da vida
Queria te dar algo,
Te dou o Tesão da Esquina
Que me alimenta – até – à alma
Musica: Where the streets have no name – U2
P.S.: Augusta e Fernando fazem parte de uma história que me sinto obrigado a escrever faz alguns anos. Um conto de fardos, fantasias e cruezas que presenciei nos últimos cinco anos morando aqui. Prostitutas chorando de frio, contratos de “namoros” para festas de amigos, além de tantos outros segredos das madrugadas.
Ainda não descobri quem foi Maria Augusta, nome antigo da rua. Fernando de Albuquerque é o senhor aí embaixo.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Fernando_Prestes_de_Albuquerque
http://centrosp.prefeitura.sp.gov.br/projetos/augusta.php
* MEIA-DÚZIA DE MEDUZAS é um conto a ser publicado ainda este ano.
P.S 02: o São Paulo Secreta volta depois do carnaval.
Escrito por Ronaldo às 02h40
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HÁ DEUS?
– Quando morreres, o que esperarias que Deus te dissesse ao recebê-lo?
– DESCULPA!
Escrito por Ronaldo às 02h11
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DEUS É MARX
Aos barbados, minha virilha e minhas gargalhadas, pelas cócegas de pêlos bárbaros. A barba rala - e espeta. A boca suave à mente aveluda o freio. Rosa. Se flor ou se não for perfeito. Nem todo beijo tem amor, nem a morte... SIDA-se facilmente.
Alucinações. A luz sina em sons, cogumelos a crescer entre as pernas, glamdemente em Bowies loucos. De perto, todos somos pertumbados, zumbis. Esperando Godot, num bis.
Sou pau para toda obra, queria meu pau em todo mundo. Palhaço. A ponte entre o pau e o aço, entre a gargalhada e a eternidade.
Sou filho de uma puta com único cliente, nasci de trocados. Eletro ou beijos domésticos trocados. Nunca fui veado. Também não desço o tapete, nem levanto o pau para tantos. Eu gosto de homem, o masculino me faz perder a razão. Não me interessa a previsibilidade passiva, prefiro o acaso que se entrega numa atividade confusa, no sorver da resistência finita. Onde tudo tem preço. Quando a língua certeira concerta aos surdos, quando a orelha pulsa - e vulva - sem querer voltar.
Barbas boas são barbas molhadas, mergulhadas nas entranhas de um homem ou d´uma mulher. No seco nada vive. Tudo que é viscoso é bom, mesmo antes do sexo. Os infelizes, que não se lambuzaram quando crianças em melecas outras e doces, ainda têm salvação. Quem nunca enfiou a cabeça entre-as-pernas de alguém ou nunca teve uma cabeça entre suas pernas não pode divagar sobre equilíbrio. Tente andar depois de uma boa chupada!
Se a mim restar o inferno, que nele tenha ao menos música animada. Não suportaria conviver num vazio sem barulho. Hoje, eu queria um I-Fode. E poder e perder o resto da minha dignidade num pires manchado de café e Free Light. Tudo está tão comedido que a liberdade perdeu as asas. Ainda bem que nos restam braços e mãos para bater nas portas e por desejos.
Queria chupar o pau de Deus, mesmo que Dele brotasse vulvas. Sugá-lo vinho, ou uvas. Queria algo a molhar minha garganta seca. Só molhado posso gritar.
Escrito por Ronaldo às 03h31
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SANATÓRIO
Sanato rio
Sonato rio
Rio que nasce dos sãos
Dos sons e do sol
Responda-me
Para onde devo correr?
Aqui enterro um amor
Que faria dez meses hoje
Que há um mês teve fim
Um amor tão profundo e tão gostoso
Dele guardarei as boas lembranças
Mas já lavei todos os lençóis
E troquei os travesseiros
Do grande amor que se foi
Guardo a possibilidade
É possível sim, sempre!
Basta não esquecer os fins
Escrito por Ronaldo às 02h48
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