EM CRUZ ILHADA

 

Não sei quase nada sobre a estrada em que me encontro, em certas curvas até a brisa dói no rosto, como um tapa, um acorde de violino, uma trilha sonora e seca. Uma folha a mais, caindo. E eu tentando soprá-la para o alto, ajoelhado na terra úmida, numa tentativa desesperada de restauração dos sonhos.

 

Sinto pela estrada o meu desfolhar, uma secura que me consome, um pacto silencioso com o pânico que tenta me arremessar ao isolamento. Onde perder-se é inevitável.

 

Não sei mais se sou eu quem caminha por esta estrada ou se são tantas estradas a passarem por mim. Só sei que os dias passam e até o mesmo é diferente. É o café a precisar de mais açúcar, e a carne, de uma pitada a mais de sal.

 

Talvez no fim de tudo eu descubra que o tudo não passou de uma grande ilusão por hormônios primitivos ou meras reações químicas, talvez no fim da estrada a revelação seja o vazio, e o que realmente importa seja o ponto certo do ovo que frita em mais uma manhã, ou o delicadeza por retirar os pelos do sabonete.

 

Sempre me assustou o fato do amor que sinto ter cheiro de morte, e d´ele ter uma carga intensa de dor. Não sei mais se momentos românticos precisam da aura de postais para emoldurar nas paredes da sala. Paredes que já fotografaram tantas outras histórias que seriam eternas.

 

Já nem sei se acredito em mim, eu me traio a cada novo sol e a cada lua nova. Até onde existe verdade quando estou excitado pelo momento?

 

Hoje, olho daqui de dentro e tenho vontade de abaixar as cabeças e seguir em silêncio. O desejo continua a pulsar – bomba atômica - dentro de mim. Em certos instantes sinto vontade de devorar o universo, mas ainda não sei o motivo que me faz seguir, hoje, calado.

Ainda não entendi meus últimos passos, e talvez essa dúvida seja o suspiro que me alimenta a seguir em frente. Não sei se tropeçarei com outros muros, ou se os muros sou eu. Só sei que vou, quem sabe um dia eu consiga a voar.



 Escrito por Ronaldo às 00h30
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SABOR AÇAÍ

 

O gentio do Norte desconhece o limite entre o céu e o mar

Enquanto aqui embaixo a indefinição é o regime

E dançamos com uma graça cujo segredo
Nem eu mesmo sei
Entre a delícia e a desgraça
Entre o monstruoso e o sublime”

 

É de terra o gosto do beijo ceifado,

Feito flecha na língua aberta e a boca muda

Correntes em pernas, correntes de rios

E um pouco de folhagem sobre pecados púbicos

 

Ainda se tenta velar as gotas suicidas da carne

Famintos olhos diante do precipício, do amor distorcido pelo suor

Ardor do sal dos olhos, molhar salgado de passado e vazio

 

O gentio do Norte convive com a escuridão da noite

Contempla o céu a parir estrelas, e parte-se entre estrelas

Sua barbárie maior é tentar devorar o céu refletido em seu peito suado

De tesão, silêncio e rio



 Escrito por Ronaldo às 02h37
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