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AQUI JAZZ NEW ORLEANS
Não me saem da cabeça as imagens de New Orleans destruída pelas águas, e o que mais me entristece é que não pude conhecê-la. A cidade que me fascina desde criança não existe mais, e mesmo depois de reconstruída será outra cidade, sem a originalidade que fazia dela um mundo à parte dentro de um país louco.
Não só a música, mas também a magia primitiva da cidade sempre me fascinaram. Ainda guardo um boneco voodoo que um amigo trouxe de lá. E interessante é que no pano que envolve o boneco tem um trecho da história de Cinderela, uma das fabulas que mais gosto.
New Orleans do Jazz, do blues e tantos outros ritmos; de Anne Rice e Entrevista com o Vampiro; de Coração Satânico; do Mardi Grass; da Rainha Voodoo e seu túmulo cheio de pedidos. Cidade que ouvi falar pela primeira vez nos desenhos do Scooby-Doo, entre zumbis e voodoos, cidade que soa às minhas músicas prediletas.
Coincidentemente assisti no sábado e no domingo a dois filmes que se passavam na cidade: A chave Mestra, no cinema, e Risco Duplo, na Globo. E como sempre, chovia muito nos dois filmes, afinal de contas sempre choveu muito ali, praticamente uma Belém do Pará.
Talvez o Mississipi em fúria tenha contribuído para criar novas lendas na cidade, talvez tenha criado uma outra cidade, ou um novo blues.
Escrito por Ronaldo às 09h49
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PAREDES DO LADO DE DENTRO
A grande festa continua... Braços ao ar, ao espelho da cama, e a jogar os lençóis na máquina de lavar. O beijo tem gosto de passado, o café da manhã freia o tempo e os cabelos surgem brancos no peito.
No fundo, concordo quase em nada com o equilíbrio que me seqüestra os dias. Ultimamente sinto algo gostoso, que parece muito com a tal felicidade que li e vi em meus livros e filmes prediletos. Mas não sei se é só isso. Nada do que vi, nada da dita realidade - esteja ela perto ou longe de mim – pode ser comparado com o que sinto ao ser possuído pela minha intangível loucura.
Desde o dia em que tive consciência de minha existência tento ser normal, comum como tantos, mas não consigo e nem posso, alguém lá de cima já fez em mim certos sinais para eu não esquecer disso.
Acho que nunca conseguirei expressar de forma clara o mundo que explode em mim, provavelmente soaria mais como arrogância do que desabafo.
Às vezes eu queria ser completamente auto-suficiente, uma ilha, um eremita invisível no meio da multidão. Mas não consigo. Sinto fome de carnes e abraços humanos, embora muitos achem que não preciso disso, que eu sempre resolvo minha vida e que não preciso de ajuda, nem mesmo de abraço, colo ou cafuné.
Sinto estar numa grande estrada de barro, mesclado de creme e branco, como as estradas do Marajó. Eu, minhas verdades e meus medos. Todos sentados, um ao lado do outro, interrogando-se sobre suas certezas.
Chegamos num ponto em que se analisa até a viscosidade da saliva de um beijo, o sal do suor na pele ou a translucidez de um orgasmo.
E embora as palavras soem árduas, estou além delas, e tão bem, como nunca estive na vida. É um dos segredos que não sei revelar.
E a grande festa continua... Braços ao luar, no espelho da cama, e a tirar lençóis das mangas. O beijo tem gosto de agora, o café da manhã faz do tempo vontades, e os cabelos surgem brancos no peito, como a paz, na alma.
Escrito por Ronaldo às 04h34
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GRAVIDADE INCERTA NA AUGUSTA DOS ANJOS E DEMÔNIOS
Às vezes não tem lua no céu, muitas vezes nem céu, somente uma névoa avisando que depois do meio-dia haverá sol e calor em São Paulo.
As buzinas nem mais incomodam, nem o grito das putas contra os rapazes agasalhados em seus carros, que insistem em achar que elas são as Barbies das irmãs, sem roupas, sem frio e sem fins justificáveis.
Quanto vale uma fantasia no meio de tanta pressão e covardia? Quando será possível resgatar o resto de dignidade em nós?
Ontem acordei para tomar água e vi uma luz vermelha no chão da sala, aproximei-me da janela e vi a lua-cheia já minguando, o céu com algumas estrelas e eu com minhas músicas e uma taça de vinho de poucos reais. Sentei no chão da sala a observar o céu e a pensar em mim... Pensei... Pensei... E como muitas vezes cheguei à conclusão nenhuma.
Tem horas que algo secretamente humano me atropela, e caio num buraco onde encontro luz. E entre o medo, a insegurança e o contraditório, até consigo sair inteiro, ou em silêncio. É quando mudo, é quando grito um “basta!” em mim e reverto as impossibilidades. Hoje o mundo perto de mim mergulhou em incertezas, e sinto-me dono de meus caminhos e feliz. Acho que nasci para estar do outro lado, e gosto de estar lá, é onde me sinto seguro e sorrindo.
Escrito por Ronaldo às 23h59
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Lucidez Insana
Devolvo ao mundo meus olhos, meus infernos e meus medos do mal.
Devolvo ao mundo o perverso em mim, a dor no sexo e o prazer de querê-la.
Amigo, amante, prostituto e perverso, sou eu! O que goza melhor no estouro da linha e da boiada, entre o prazer e a dor.
Hoje, e só por hoje, o amor morreu. E nada me convence que é possível pensar em eternidades.
Hoje ele adormece entre minhas pernas, amanhã, em outros braços, e mundos não controláveis por mim.
Olho em seus olhos dormidos e sinto a vontade de seqüestrá-lo para mim, mas nem posso! Ele é livre, e sempre existirá uma rua ou banheiro entre nossos acordos de paixão e eternidade.
Ele nunca será só meu, ele tem vontades próprias que não posso controlar. Chego a pensar em amordaçá-lo de pedra e ferro, mas sei que ele escapará mais rápido, e sem mim.
E ele um dia se esvai, como o secar de sêmem ao vento, como um suspiro sem futuro, lembranças, e nada mais.
Os pedaços estão maiores do que deveriam estar. E a certeza que me rouba o chão é tão puta e vendida como eu tentando sobreviver ao caos. O que sobra de verdade? Da verdade que sabemos ser impossível. O que sobra de nós, diante de um precipício que nos chama: putas? Onde vamos parar... ou nos destruir?
Escrito por Ronaldo às 05h15
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