(
Josephine Baker)

Para Josephine Baker, para meus amores, e pelo incerto lugar onde pisamos.



AO IMPOSSÍVEL

 

São tantas luas a fatiar, do céu, meu peito

Ou o girar de pétalas sob sóis, vermelhos

Sou eu em ti a me perder

Do verde de um Chico cego

Em velados ventos Caetanos
Um vídeo entre o quereres de uma música

Sendentos de desejos perdidos

 

Abro a janela e a vejo rimar com a ausência

Do mesmo chão em que cismo, terremotos

 

Não entendo a carnal-valia do País em mim

Nem a cama em que se perde o fim

Não entendo os intermédios de certos nãos

Nem a solidão que faz água grudar nas mãos

Não entendo a noite suja que alivia os dias

Nem ritos sãos, nem Terezas santas e frias

 

Fecho a boca e seco a saliva no dente

Ato frágil e desesperante por renegar minhas asas

Faço, com um facho de dentes alísios, alívios e ventos

Um sorriso fácil, perdido em si e em salas

 

Em que pensas quando estás sozinho(a)?



 Escrito por Ronaldo às 01h58
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(Montagem: Ronaldo M.)

AS DUAS TORRES

 

Fome e grito não cessam

Nem eterno é o silêncio aparente



 Escrito por Ronaldo às 04h05
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HERMETICAMENTE PARTIDO

 

Reencontrei um pedaço do passado, e ele estava com menos dentes do que a lembrança que eu guardava na gaveta dos medos, mordendo menos. Quando é que as sombras somem da sala?

Mergulho, e em mim as flores mudam os sons no balançar e arrepios por outros ventos.

É o cheiro de café preto, de fogo à lenha, sem açúcar, que me turva em trevas agora tênues. É o passado sem força, como um pai que envelhece e perde o direito de bater. Sou eu, maior que o batente da janela, a ver o mundo sem intermediários, e agora podendo tirar minhas próprias conclusões, talvez tão erradas, mas minhas.

Os suores dos outros não têm mais aquele cheiro de corre-e-pula, brincadeiras descompromissadas com o certo. O cheiro do suor que sobe agora soa a perigo, e a cama da gargalhada vira ringue de quereres e fins que se completam, em si contrastam, e se saqueiam.

A verdade está mim feita de tempo, e eu, filho de um tempo que foge do fim, sigo perdido entre certezas que evito encontrar.



 Escrito por Ronaldo às 03h46
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REMADE IN JAPAN

Nessas horas em que o chão parece maria-mole dá vontade de sumir para o Japão. Sei que fugir não resolve problemas, mas eu, que já atravessei um continente, sei que se pode reinventá-los quase nulos.
Queria estar hoje no olho do furacão desse tempo desconcertante, desfiar meu cabelo em verde-fluorescente, devolver meus quatro brincos às orelhas, vagar por Shibuya ouvindo Pizzicato Five, imerso num mundo de regras outras,
Lost in Translation.
Quem sabe uma pátria de sol vermelho e olhos puxados – que me tentam a carne – possa ter outras respostas para desgastados questionamentos.



 Escrito por Ronaldo às 11h38
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A-mor-te-soul


Nunca principio, nem acabo. Sou peito, e feito do feio do barro, sou cabo, tormentas e Áfricas escuras. Gozo nos extremos das cores, sou feito do preto e do branco que se disfarçam pelos intermeios.


Sou vidros, vinhos e fendas violetas, sou a rosa que cai de um andar perdido entre o céu e o inferno, sou o sêmem jorrado das esporas das rosas, sou o vermelho das pétalas que mancham os dedos, sou mais um imbecil que ainda chora por poder ainda mergulhar entre as cores.

Prendi meus demônios num inferno tão distante que de minha fúria só restaram lágrimas. Sentir raiva ou percebê-la perto de mim me faz chorar. E embora evite machucar quem amo, sei que não é sempre possível, sou alma feita do feio do barro. Sou em partes carnívoro, alimentado de fomes e violências entre os dentes, sou roda-viva de uma vida que rola sem destino certo, entre tantos erros e sem sins.

E mesmo beijado, abraçado e amado por tantos mundos, sou insaciável! Sonho com o universo inteiro a meus pés. Eu, arrogante e perigoso, queria a eternidade de uma glória fascista. E isso me assusta!

O que é tal sentimento repugnante que me persegue? Seria eu o único a sentir a necessidade de ser adorado?
Tem tanto amor em mim, e tanto ódio também, que algumas vezes pensei ser uma bomba-atômica. Hoje, sei que não. Ou, talvez, tenha virado bombinhas de São João.

Ainda não sei direito o que significa ser humano, só sei que o sorriso que beija também pode morder.



 Escrito por Ronaldo às 23h45
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DOMINGO ESPECIAL

Eu, recolhido por tantas reviravoltas ao meu redor, relembrei de uma poesia - graças a meu amigo Silas - que um dia quis postar, mas acabei esquecendo ou mudando de momento. Mas hoje ela voltou mais forte e certeira:

CÂNTICO NEGRO
(José Régio)

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



 Escrito por Ronaldo às 22h31
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ANDAR COM FÉ EU VOU,
QUE A FÉ NÃO COSTUMA FAIÁ

Se é do impossível e do invisível
que nascem as cores,
como posso velar a esperança?



 Escrito por Ronaldo às 02h44
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