OS OLHOS DOS FAUNOS

Meus olhos viraram um plug usb.
Meu corpo apropriou-se de monitores de plasma.
Meu olhar agora tem escolhas atemporais, links aleatórios e zoom.
Minhas pálpebras piscam, e acordo em outro lugar

Tenho visões. Todas do passado. O presente está lá fora, um agora do qual meus olhos não participam
Tenho meus cães à minha volta. Todos me amam, das tomadas, plugados.
Tenho medo de perder a última visão antes que ela se preserve na censura, no esquecimento

Algo se vai frente ao inverso. Ele se consome em luz.
Eles me observam. há luz lá fora. O agora virou fotografias, aqui dentro tudo continua em si, no mesmo lugar.
Os dedos viraram símbolo de não tocar
E a música continua em meus olhos



 Escrito por Ronaldo às 02h34
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SMALL DOGVILLE I

 

Máscaras ao chão. Há um brilho de diabo em meus pequenos atos, como respirar num beijo em espiral. Quando estou morto sob o véu e nem o vento me sopra, meus olhos se perdem em pensamentos, caio diante da pedra e o fogo sobe sem rumo de dentro de mim.

 

Selo palavras em pensamentos cerrados, na tentativa de velar o obscuro de minhas sombras, na busca de ser possível transformar a escuridão do subsolo em alicerces de girassóis.

 

Sinto ser daí que nasce o verdadeiro amor, aquele que me cega por fazer brotar cores dos olhos de quem amo. Meu melhor gozo é sentir o amado, liberto e seguro, desfalecer em suspiro na confiança dos meus braços.

 

Queria te confessar um segredo, mas tenho medo que entendas tudo errado. É lógico que lembras dos tantos abraços que evitei!

Meu rosto é alérgico ao suor da pele de outra pessoa. O beijo é bom demais, e eu te beijaria eternamente, mas arde muito e meu rosto fere. Até minhas mãos me machucam.

 

Às vezes parece fácil colocar assemelhados num mesmo foco de suposições, mas há muito mais coisas permeando certas incertezas. O mundo e a vida são tão complexos que o óbvio é a falsidade em certezas vazias.

 

O simples é bom demais! Mas se pelo simples fluísse minha energia eu nunca seria humano, talvez uma ameba, ou uma gota de chuva. Mesmo sabendo que ameba e chuva possam ser bem mais complexas que eu aqui deixando o tempo passar.

 



 Escrito por Ronaldo às 12h41
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CARTAPRATi

Em ti depositei minha última confiança em tudo que é humano.  Erro meu!
Depois das bicicletas caídas entre a mata, só senti insegurança e medo; sorvi sombras, e o teu distanciamento por culpa: tua.
Éramos tão delicadezas num cenário hostil, éramos sorrisos sacanas ainda misturados naquela falsa pureza dos rios. Éramos a minha tosca esperança, o meu pensar do possível a enfrentar a realidade do todo que nos envolve. Tu nunca serias minha posse, e nunca serás. E mesmo que a incoerência do teu hoje te devolvesse a mim... Não estou mais no teu aqui.
Já naveguei e naufraguei em tantas outras águas que infelizmente viraste mais uma sombra no meio do caminho. Se perguntas se ainda te amo?!Sim.Num passado que perdeu a cor, num rio que não mais corre, num pôr-do-sol que afoga teu fim dentro de mim. Tu foste covarde, eu também.
Sabes exatamente onde se esconde o nosso último olhar? Ou as palavras não ditas nele?
Sinceramente... Também procuro alguma das possíveis respostas. Sempre que te tocava eu ouvia o silêncio, quem sabe fosse esse o grau maior dos nossos “tropessamentos”.  Desconfio que em ti encontrei o melhor da solidão. Em ti eu mudo, sou só silêncio.



 Escrito por Ronaldo às 03h02
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Como posso almejar asas se meus anjos-da-guarda têm chifres?



 Escrito por Ronaldo às 02h34
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Tento beijar céus, e só me sobra o chão, despluralizado de sonhos.



 Escrito por Ronaldo às 02h42
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QUEM TEM MEDO DE TINA TURNER?

Há preços impagáveis, em alguns dias se apanha de um, em outros é possível gritar a dor num estádio ou numa janela, para multidões. Um dia a gente chora, no outro, brotam músicas dos olhos.
São dias atrás de outros. Camas e camadas atrás de uns, e às vezes não se encontra ninguém, nem a própria sombra no meio de tanta escuridão.
Em tempos de Control+Zeus não existem mais pecados. Ainda não existe GPS para almas, nem para desesperos particulares.  E Marias e Madalenas descem rios com seus pudores e culpas em copos Winehouses.
Yes, I Amy! Mas, não me interne! Ainda não sou alcoólatra, apenas tenho instantes depressivos. Só não sei até quando. Talvez minha salvação seja o desequilíbrio. E tal descontrole, minha solidão.
Cansei de me fazer encaixar em vazios abandonados, para não incomodar. Neles não me acomodo. Não caibo nem em mim. Sinto-me um pulsar no limite de explodir, um orgasmo de pipocas na platéia do cinema.
Luz, quero luz! Ro Ro!
Talvez o limite da felicidade seja um muro de orgulho e arrogância que não me deixa assumir minha persona real: um palhaço. Quem sabe do ridículo possa nascer sorrisos internos bem mais concretos que a polidez de certas atitudes melancolicamente aceitáveis.
Cuspir no rei parece ser uma atitude honrosa. E beijar-se num corpo mendigo não seria uma salvação melhor?
Se eu for para o inferno, ou melhor, depois que eu for para o inferno, sempre que lembrares de mim cante uma música bem alegre, daquelas que me fazem sair de mim no primeiro acorde.
Dormir é um talento que pouco tenho. Sonho muito, principalmente acordado. 
D'accord, d'accord, d'accord... Sou feito de acordes dissonantes.  Infernos e Dantes.



 Escrito por Ronaldo às 03h21
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PRIVATE DANCER

I`M YOUR PRIVATE DANCER
A DANCER FOR MONEY
I`LL DO WHAT YOU WANT ME TO DO
I`M YOUR PRIVATE DANCER
A DANCER FOR MONEY
AND ANY OLD MUSIC WILL DO

Eu ainda te amo, e tu sabes o quanto
O teu traveseiro ainda guardo na minha mala
A esperar o próximo avião

Hoje ando num vazio tentando reproduzir aquele beijo,
Mas não sinto tuas mãos, nem meu peito
Acho que tu roubaste meu último sorriso naquela árvore

Da nossa história só sobrou a cicatriz nela
Um dia voltarei lá para relembrar o tempo das coisas importantes
Minha última lágrima de paixão caiu naquela mata
Morrerei contigo no meu peito.



 Escrito por Ronaldo às 13h37
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A ILHA

Meu mar tem nome: paciência. Um mar a Jó. Um rio que corre, por ser seu destino correr, navegar em si, mergulhar em fins . O Marajó não tem sim. Tem sinos no final da tarde e sinas no fim da madrugada. São rios e ilhas a se esfregar brutalmente, sem permissão.

Os rios de Boa Vista são turvos e densos, quase tudo está guardado do olhar passageiro. É um lugar de “para sempre”, para se observar e perder a noção do tempo que escorre entre aquelas águas. É belo e grotesco. Um lar para estrangeiros e um purgatório para boavistenses. A ilha trai, e expulsa. A ilha é má, de uma crueldade quase punição. De uma beleza que cega, um pôr-do-sol que te enfeitiça como bichos da luz.

Existem lugares no mundo infinitamente mais belos que São Sebastião, até se pisar naquela terra. Aquela ilha engana, se vende ao olhar como se fosse o paraíso. E não é.

Boa Vista é um dos portais do inferno, mas eu amo aquele lugar. Só lá eu consigo ter instantes de juízo, e força para enfrentar qualquer destino.

Os rios de Boa Vista correm entre o sangue de minhas veias. Não existe nada tão assustador quanto as águas da vazante dos rios no fim da tarde. É de uma agressividade absurda.

O pior é o silêncio do entardecer. Ele dói no ouvido. E provoca a sensação de se estar só no universo. 

Quando se senta naquela ponte pública no fim da tarde dá vontade de sair voando com os papagaios, para um lugar qualquer, para qualquer lugar longe dali.

Em São Sebastião se vê satélites a vagar entre as estrelas, muitas estrelas... Lá é possível envolver-se num por-da-lua. 

A lua é um espetáculo à parte, ela pode ser vista no céu do meio-dia. E o nascer da lua cheia é algo entre o espetacular e o assustador.  E quando ela vem com tempestades... Arrepia.

As tempestades do Marajó são (eram) apavorantes. Já vi raios caírem à minha frente, e ventos e chuvas de dilúvio. Mas também brinquei de barquinho de papel nas sarjetas da Coronel Monfredo, nas valas do colégio das friras. Tomava banho de chuva quase todas as tardes e mergulhava num rio de águas mornas na ponte do Seu Cabecinha. Bom era colocar os olhos no nível da água e ver aquelas gotas espirrarem do céu no rio, ficar de molho no igarapé e morrer de cócegas com camarões a me beliscar as pernas.

Saudade dos amigos, que mesmo longe continuam amigos, saudade de tantas pessoas que quero muito bem.

Ainda sinto o cheiro das águas de março a naufragar a cidade. De olhar pela janela do meu quarto e ver girinos e peixes no igarapé que surgia em março sob minha antiga casa, quando a Coronel Monfredo ainda tinha pontes.

Hoje, estou em São Paulo, muito disso me soa tão estranho, aparentemente não tem nada a ver com a minha realidade. Mas em Boa Vista engatinhei sob algumas casas procurando potes com tesouro, procurei peteca e tampas de coca-cola para ganhar miniaturas de coca-cola  da Índia ou do Japão, mas só se achava folha seca e os eternos plásticos mergulhados na terra, além de tampinhas de guaraná cerpa.

Quando me questionam sobre o motivo d´eu ter saído do Marajó sempre digo que foi por falta de oportunidades profissionais, mas minha versão oficial é o medo da ilha. Vivi 15 anos em Boa Vista, 15 anos de muitas lembranças apavorantes. E embora em SSBV eu tenha vivido os melhores dias da minha vida, a ilha me assusta.

E mesmo com medos – de infância – do sol e da lua que se poem no Coroca, o minha Boa Vista é a minha vida, o meu ódio, as minhas inseguranças, os meus medos e o meu equilíbrio.  SSBV é o lugar que eu mais amo em minha vida, mas ele me machuca tanto que prefiro ficar longe dele. E se eu tivesse a opção de escolher onde nascer, escolheria nascer lá novamente.
Devo muito àquela ilha.

Só tento ser um pouco daquele pôr-do-sol.



 Escrito por Ronaldo às 17h11
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À última noiva / 31 de maio / Pontos finais.

O frio chegou.  
Ele, ainda não.

O vinho continua a hibernar na geladeira desde o começo da noite.
Deve ter passado o ponto da temperatura cool.
Comecei a esfriar também.
Deve ter sido a roupa nova...!
Verde não é bom depois das seis da tarde. Nem da sexta idade.

Vou colocar uma música* para me deixar distante.
Nos meus lugares secretos.
Um distante tão longe, onde solidão não se sente, onde ela não faz mais sentido.

Ele não vem mais...
Merda!
A rolha do vinho quebrou.
O barato de um vinho argentino nem sempre é bom.

Nessas horas é bom ter milhõe$.
Só para aliviar a miséria aqui dentro.
É quando certos crimes até então evitados surgem tentadores.
Um Pas de deux sobre jacas de uma bailarina alada

Estava tentando tanto pisar no chão!
Não consigo sair dos tetos da minha cela:
Minhas tetas masculinas.

Ainda bem que deste lado debaixo do mundo não tem sóis à meia-noite.
Não queria meu olhar a me entregar. Não sem motivo.

Aqui, precisamente hoje, o frio tomou conta do chão do meu quarto.
Uma névoa densa a soprar meu tapete.
É quando dá vontade de acordar sob um só, e travesseiros nos pés.


* Ouvindo: James Blunt - Same Mistake

“E então eu mandei alguns homens à guerra,
E um deles voltou na calada da noite,
Disse que tinha visto o meu inimigo
Disse que ele se parecia comigo
Então eu me preparei pra me ferir
E aqui vou eu”


 Escrito por Ronaldo às 00h57
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PÉS SEM CALÇOS

As sombras somem quando quebro a luz não sou ser de escuros



 Escrito por Ronaldo às 05h21
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Recomeço

Nunca escondi meus infernos, nem o pior de mim. Afundo em meus devaneios.
Não clamo salvação, nem piedade.  Nem por um momento fodido, ou perdido, com todos os “ds” possíveis.
Nem sei onde há dor...
Eu tomo vinho e rio, como sempre, rio... Não sei ser diferente...
Eu calo, desapareço... E volto como um final de tarde do Marajó.
Nada vai me derrubar!
Eu quebro por ser estúpido, por ser imbecil, ou por tantas outras imaturidades minhas. Mas não quebro por pouco! 
Não sei para onde vou, não sigo o caminho de outros pés, não canto só em mim, e nem sou um canto só.
O zumbido do silêncio do fim da tarde no Marajó é minha eterna agonia.



 Escrito por Ronaldo às 01h18
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ENTRE PORTAS E JANELAS

 

Há alguns dias estou abduzido por um computador de 22 polegadas, com mouse e teclado sem fio. Sinto-me tão deslumbrado quanto no dia em que brinquei com meu primeiro vídeo game, um Odissey, nos 80´s, quando ainda morava no Marajó. Num tempo em que Manaus era o pólo de tecnologia do País.

 

Daquela época a agora muito aconteceu, o muro simbólico foi erguido no palco pelo Pink Floyd e o original caiu entre Berlins. Madonna utilizou-se de crucifixos à cabala para se masturbar e tentar ser Virgem... Maria. Michael Jackson virou branco, Bowie virou hétero e Gretchen, um ornitorrinco. Eu: gay!

 

Voltando ao computador e às grandes polegadas... Hoje sou diretor de arte, passei na faculdade que parecia ser impossível para a realidade da minha tribo Marajó. Aqui, na outra selva, virei um bom diretor de arte, e tenho muito orgulho disso.

 

Trabalho há dez anos com computadores e ainda lembro-me do meu primeiro contato com a informática, do medo de desligar a máquina da tomada e perder tudo o que eu havia feito. Às vezes me pego ainda não entendendo como certos registros podem ser quase eternos, e já não entendia isso desde o tempo da “simples” fotografia, que um dia virou o cinema que adoro, e “incompreendo” cada vez mais.

 

Trabalho com imagens todos os dias; imagino uma cena, tento construí-la, recorto imagens, duplico-as, mudo o fundo, a luz, limpo peles, o chão, as paredes: um faxineiro; elimino e coloco pessoas em cena, faço ampulhetas gotejarem óleos de girassóis em capas de revistas. E mesmo assim, depois de tanto tempo, ainda me intriga a tecnologia que faz tudo isso rodar entre janelas.

 

Entendo Magnólias... E um pouco de samambaias. O resto, finjo entender. Sou fruto de “uma inocência pisada”. Ser leve não me adjetiva. Sou pedra... Pomo, uma esponja ao mar. Aprendi a morder maçãs nas madrugadas paulistanas.

 

Se eu pudesse ser o autor da minha epígrafe, seria: Ninguém é perfeito!  

Mas minha mãe – se ainda viva lá... – não permitirá tal verdade. A não ser que eu deixe em testamento. Vou pensar no caso!

 

Viver em festa alimenta minha alma. Seja amar, cantar, dançar, gritar, gozar, um bar ou um par. Vou e vôo para um canto... Seja ele de uma palhoça ou de Billie Holiday.  Mas vou sempre. O desconhecido me atrai. E voar sempre É o meu maior sonho, até em sonhos.

 

Quem sabe um dia envolto por minha casa...



 Escrito por Ronaldo às 03h30
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Sun-Maré

Acordei com um sol simples gritando na janela, de um amarelo-outono. As folhas ainda não caíram, nem eu.

Meu quarto continua uma zona, enfiei meu antigo apartamento e meu último pedaço de Augusta nele.

Durmo com as pernas apertadas pelo guarda-roupa invisível – uma arara de loja de shopping, minha vitrine particular.

Hoje durmo sobre um açougue; perdi minhas gavetas, todas viraram caixas que me incitam mudanças.

A morte rodopia à minha volta numa dança cínica: um pebolim. Jogadores empaladamende presos diante de uma bola a girar entre limitações de movimentos.

Particularmente, o Sumaré não é um bairro que acolhe meus infernos.  Aqui as pessoas fecham as cortinas antes de dormir, dobram guardanapos... de papel; e brindam por verdades que desconheço.

São Paulo provoca angústias em certas almas, prefiro ter Augustas em mim.

E assim vou... Não sei para onde, mas continuo, tentando não me atropelar.



 Escrito por Ronaldo às 03h03
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I Got You Babe

Eu queria você para não acordar sozinho,
Para não sonhar sozinho,
Para não gozar sozinho.
Queria que você fosse a minha boa desculpa
Para usar um anel.
Para... Continuar...



 Escrito por Ronaldo às 04h20
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DETALHES

 

Não sou adepto da delicadeza blasé, nem de detalhes. Esquivo-me até do Alencarismo de seu Zé e sua Iracema halitosamente: baunilha!

Mas trago da ilha em mim “a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome.”

Joguei o amar ao mar, com suas ondas batendo e arrebentando-se em pedras, em areias e em si mesmo, repetidamente, em tempos e lugares novos. Um debater-se necessário, repetindo-se no mais do mesmo: O sempre com cenário “moldificado”.

 

Sim! Amei muito. Amém!

 

Ele roubava meu melhor sorriso, e até hoje me rouba, em sonhos. Acredito que exista sempre um amor maior que suplanta quaisquer outros amores também importantes.

Aos 10 eu colecionava samambaias, ele me presenteou com vinte e tantas espécimes diferentes, que ele colheu na mata da ilha. Ele sabia que tal vício era temporário, anos antes já havia me presenteado com petecas – bolinhas de gude – de todas as cores e formas. Eu queria um pedaço do mundo, e ele queria pedaços de mim. E teve.

 

As tempestades daquela ilha desvendam nossas maiores fraquezas. Numa madrugada acordei com a ilha em chamas, a cidade quase toda fugiu em canoas para o outro lado do rio, e eu dividia um lençol fino com ele. Foi a primeira vez que pensei em fugir daquele mundo de chuvas, onde eu brincava com meu Falcon nas sarjetas, entre barcos de jornal, girinos e baratas-d´água.

 

Ele sempre prometeu me proteger, e assim fez, até o dia em que nos apaixonamos pela mesma mulher. Nos separamos por um tempo. Conheci outros amigos, cometi meus primeiros interessantes pecados, ele continuava presente à distância. Sabia de tudo, naquele fim-de-mundo tudo é um quintal pequeno, até os jardins revelam os segredos.

 

O tempo passou complicado e delicadamente, voltamos a nos aproximar no julho de 1989, tivemos dois verões inesquecíveis, ele quase desacreditou em sua sina de ser mais um pai de família. Meu silêncio foi sufocante em mim, eu queria tentar algo que eu nem sabia ser possível. E acabei me contentando com passeios de canoa até o outro lado do rio, calado. Desejando mais, o pouco mais que ainda era possível. Muitas aventuras com terceiras pessoas aconteceram até a nossa última travessia do rio, a última vez duros e cegos da cidade ao longe. Foi a última vez que o desejei tão ao lado, a última vez que nos tocamos fervorosamente. Ainda lembro do rio, da conversa e daquele sol a se pôr.

 

Hoje, ele se foi. Está morto e aprisionado num lugar que nunca será amanhã. E eu estou aqui, no hoje, buscando paixões novas. Nem tento comparar, pela incompatibilidade de histórias. Eu o amei. Ele será sempre meu maior amor, minhas impagáveis memórias. Mas, continuo aqui, sorrindo sempre por novas possibilidades.



 Escrito por Ronaldo às 03h37
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